Anônimo I

Segue abaixo um trecho do conto "Anônimo I", considerado por muitos leitores, bem como críticos de literatura, como uma das melhores, dentre as histórias que constituem o livro "Os Nomes na Máquina":

"[...] Todos os dias, alguns minutos antes das dezessete horas, Juliana e Amaranta vestem a melhor combinação de seus guarda-roupas, calçam as sandálias com maior salto, despejam meio vidro dos mais caros perfumes no corpo, usam tanta maquilagem quanto Pernilongo – o palhaço do pequeno circo municipal – e depois vêm se sentar num banco da praça a fim de aguardarem a passagem de um sujeito chamado Silvio.

Trata-se do horário em que rotineiramente Silvio apanha o ônibus escolar. E por mais atrasado que o motorista esteja, indiferentes quanto às reclamações dos outros passageiros, Juliana e Amaranta não liberam o Silvio antes de baterem com ele um papinho permeado por risinhos forçados.

Talvez devido ao fato de o Silvio se portar como se fosse um célebre galã – aqueles sujeitos pasmados dos filmes românticos-água-com-açúcar –, quase todas as jovens da cidade sentem atração por ele.

No entanto, contrariando a imagem que tem de si, o Silvio é deveras mal-acabado. Não por enxergar através daqueles olhos que parecem querer fugir da órbita (eu também quereria fugir se o destino resolvesse me transformar nos olhos de um sujeito tão insuportável), não por seu nariz de bom-moço se assemelhar a uma batata colhida em pleno campo de testes de bombas nucleares, ou mesmo por seu andar remeter a um hamster sapateador que acabara de receber do veterinário a terrível notícia sobre o seu inevitável afastamento dos palcos engaiolados devido a um reumatismo galopante.

O Silvio torna-se feio por se considerar o mais charmoso dentre os mortais. Mas esse lapso de medida não é de sua inteira e exclusiva responsabilidade. Pode-se atribuir parte da culpa a certas “menininhas”, como a Juliana e a Amaranta, que não perdem uma só oportunidade de inflar um ego já aprioristicamente pretensioso.

Gostaria de descobrir o motivo que leva as garotas a suspirarem pelo Silvio. Beleza nós chegamos à conclusão de que nada tem a ver com o citado evento. Talvez o Silvio seja articulador de um papo de primeira, mas seria impossível checar a verossimilhança de tal hipótese. O indivíduo vive cercado de companhia feminina. Só cumprimenta a distância através de um reles aceno de mãos – sorriso cheio de dentes estampado na carona de boa pinta.

O pior é que a propagada fama de galã se espalha como fumaça de narguilé. Ilude e fascina até mesmo moças espertas como a Patrícia. Ao notar o interesse de uma garota tão especial, e por ser pedante, mas não idiota, o Silvio não perderia a chance de tirar da cartola todo o seu cínico acervo de frases feitas e lugares-comuns.

Eu fico chateado como um elefante de ressaca. A Patrícia é muito legal! Ela tem os cabelos lisos, negros como os olhos. O traçado de seus discretos lábios está em perfeita harmonia com a pele clara. Costuma caminhar pela praça como se fosse um anjo a flutuar sobre nuvens. Assim que me vê abre o franco e delicado sorriso e diz “oi” com a mais suave voz que se poderia ouvir.

Por mais que eu passe as noites em claro a dar vazão a infinitas conjecturas, não consigo entender os motivos que levam a Patrícia a se interessar pelo Silvio. O que os dois podem ter em comum? Todas as vezes que eles se encontram, porém, a Patrícia começa a suspirar e ajeitar as mechas que o vento soprara. Depois eles ficam conversando horas a fio, como se o mundo ao redor fosse o mais ínfimo dos detalhes.

Sei lá! Talvez  Patrícia e o Silvio até já estejam namorando! Poucas coisas são capazes de me aborrecer. Entretanto, em primeiro lugar desta resumida lista, encontra-se o infeliz acaso de a Patrícia ser tão perfeita e ao mesmo tempo deixar-se envolver por um sujeito que não acredita em vida além do próprio umbigo."

[continua...]

Ilustração da Artista Plástica Elizabeth Finholdt. Acompanha tanto o e-book quanto a versão impressa.