Marcelo

Abaixo segue um trecho para apreciação do conto "Marcelo", uma das excelentes histórias que compõem o elogiado livro "Os Nomes na Máquina":

"O vizinho cerrando com força a janela que dá para a rua, carro que passa veloz durante a madrugada, dia que sucede noite e sucede o dia, planeta girando ininterruptamente; tudo, enfim, parecia pulsar no mesmo ritmo. Marcelo, por outro lado, sentia como se ele fosse a indiscreta exceção.

Havia momentos em que Marcelo conseguia acompanhar a velocidade dos acontecimentos. Raros e breves momentos em que ele se comprazia com a amena sensação de integração. Mas logo advinha o descompasso. Ou Marcelo acelerava e o mundo ao redor insistia na lentidão, ou as coisas se passavam tão rapidamente que as pernas de Marcelo perdiam as forças e o obrigavam a estacionar no tempo crasso.

Marcelo divagava com incrível facilidade e nem sequer percebia que o seu distrair era proposital. Os eventos essencialmente simples chamavam a sua atenção de uma maneira irresistível. Ele não poderia mesmo se culpar pelo fato de uma ínfima gota-d’água de repente lhe parecer ilimitado universo.

Foi exatamente o que aconteceu no dia em que Marcelo quebrara o braço. Sua mãe regava o jardim e o efeito dos raios solares incidindo diretamente sobre as gotas que caíam – o reflexo multicolorido como um espelho de forma indefinida a se expandir e retrair sobre a grama do jardim – era tão simples, belo, perfeito, que Marcelo não pôde deixar de observar e se distrair.

Ele estava sentado num balanço e seu primo o embalava. Esqueceu de se agarrar nas correntes e caiu alguns metros adiante com o forte empurrão que o primo deu em suas costas.

Certa vez, sentado no banco de uma lanchonete, comendo sanduíches e tomando refrigerantes em companhia de Pablo, o irmão mais velho, Marcelo acabou sendo obrigado a ouvir outro dos inúmeros sermões que marcaram a sua infância. Pois as distrações de Marcelo não dependiam exclusivamente de uma junção de vários elementos a constituírem perfeito contexto. Determinado detalhe, a completar o que fosse, bastava para chamar a sua atenção e distrai-lo irremediavelmente. Tal como a mancha de dois centímetros na meia-calça da loira sentada a poucos passos dos dois irmãos.

Marcelo fixou-se na mancha e sua abstração foi tão profunda que ele não pôde notar o desconforto da moça. A todo o momento ela mudava sua posição na cadeira e tentava cobrir a mancha com a minissaia. Sua insatisfação com o fixo olhar de Marcelo por fim a moveu até a mesa dos irmãos.

A proximidade da loira revelou a Marcelo que a bela estrela avermelhada, a brilhar num firmamento bronzeado, na verdade, não passava de um vexatório borrão de catchup. Então ele voltou à realidade a tempo de ouvir a moça dizer:

“Vocês não têm vergonha de ficar encarando os outros?”

Pablo, o irmão mais velho, era um sujeito tranquilo. No entanto sentiu-se tão envergonhado que aplicou dois beliscões em Marcelo e desistiu de tomar o lanche. Alguns meses se passaram antes que ele aceitasse sair outras vezes em companhia do seu irmão.

Embora Marcelo nunca tenha almejado notoriedade, os seus acidentes o tornaram popular, sobretudo na rigorosa escola que ele frequentava. Marcelo preferiria mil vezes a incógnita. Era melhor até mesmo viver sozinho a ser obrigado a mostrar amarelo sorriso todas as vezes que alguém fazia alguma piada ou inventava novo apelido sobre a sua pessoa. Ele sabia que era inútil retrucar ou responder com violência, mas não achava nada engraçado quando os colegas o chamavam de zumbi.

Aliás, poucas coisas tinham o dom de divertir Marcelo. Sua maior demonstração de contentamento era o discreto sorriso que raríssimas situações o levavam a exibir. Marcelo jamais gargalhava como a garota que certo dia ele avistou no refeitório da escola.

Camila tinha dezessete anos e a risada mais incomum que Marcelo já ouvira. Era a primeira vez que alguém lhe proporcionava algo além de alguns instantes de distração. Marcelo quis saber tudo sobre a pessoa que o apresentava a tantos sentimentos paradoxais. No dia em que viu Camila pela primeira vez, porém, ele só conseguiu se distrair com os seus traços, e lutar contra a voz que insistia numa imediata aproximação.

Poucos dias depois de sua transferência de uma escola da capital, Camila já se tornara o centro dos comentários entre os estudantes do sexo masculino. Ela era bonita, olhos castanhos, cabelos lisos batendo nos ombros, corpo perfeito que todos desejavam nem que fosse por uma única noite."

[Continua...]

Ilustração da Artista Plástica Elizabeth Finholdt. Acompanha tanto o e-book quanto a versão impressa.