Pessoa

"Pessoa" é o título do primeiro dos contos que compõem o livro "Os Nomes na Máquina". Foi descrito pela jornalista e crítica de literatura Luciana Murta, como um dos textos de maior sensibilidade que ela já leu. Segue abaixo um trecho do "Pessoa" para apreciação:

"Ninguém descreveria os meus dias com os adjetivos: agitados, surpreendentes, empolgantes... Moro numa pequena cidade litorânea cuja principal vocação é se esconder do mundo ao largo. Todas as praias do município são desertas. O oceano mantém-se quase sempre calmo, tom esverdeado, ondas de macia espuma que não ultrapassam a altura dos joelhos.

Caso o leitor pretenda passar as férias em ambiente cheio de possibilidades, aconselho a não vir pra cá. Às vezes penso naquelas cidades cujas festas típicas rendem vários meses de trabalho, que os habitantes executam com largos sorrisos nos lábios. Refiro-me àqueles eventos que de vez em quando são reportados em revistas ou programas jornalísticos da TV, tais como o “Festival Anual dos Tomates”, o “Concurso da Princesa do Milho”, ou a “Festa da Cerveja”.

Nenhuma dessas festas é realizada na cidade onde eu vivo. Aqui se comemora muito timidamente apenas o que todo o mundo costuma celebrar por hábito. Desconfio até que raros habitantes locais se emocionam com datas como a Páscoa ou o Dia dos Pais. Quando muito, trocam cumprimentos como se entregassem boletos bancários para a caixa da agência registrar o pagamento.

Essa apática característica, porém, não é motivo para que eu me sinta chateado. Certos eventos organizados entre conterrâneos parecem-me meio sem sentido. Alguns beiram o ridículo. Por exemplo: qual a graça de se passar horas a fio atirando tomates uns nos outros? Ou então qual a graça de se enfurecer touros para que depois se possa fugir deles como um desesperado pelas ruas da cidade? E que graça poderia haver em beber litros e litros de cerveja usando exóticos copos? Para ser completamente sincero, não acho a menor graça, e prefiro o marasmo que caracteriza este município.

As ruas são todas revestidas com certo mineral escuro e pesado. Os raros carros que circulam por estas vias enfrentam grande trepidação. Devido ao vento constante de cheiro que os visitantes costumam descrever como nauseabundo – e que passa despercebido pelos nativos –, as pedras do calçamento são cobertas por fina camada de areia, o que as torna extremamente escorregadias.

Fui testemunha de inúmeros tombos. Posso corroborar a teoria de que nenhum elemento no mundo, por maiores semelhanças que se possa perceber, é igual a outro. Dois acontecimentos, mesmo que aparentemente tenham seguido idêntico encadeamento, jamais poderiam ser considerados exatamente iguais. Posso corroborar tal hipótese tecendo analogias a partir dos sempre singulares tombos de que fui testemunha. Todos os tipos de escorregões e tropeções e estropiar de pés, joelhos, cotovelos. Detalhes inusitados e às vezes próximos, mas nunca iguais, embora invariavelmente vexatórios.

Tais acidentes, e a vergonha subsequente, acabam encerrando pelos dias seguintes os moradores dentro de suas modestas casas. Encerram até mesmo os habitantes mais abastados, cujas residências, porém, só se diferenciam das primeiras no que se refere à maior extensão.

Acontece que ninguém se preocupa com o aspecto da fachada das construções locais, pois não há tinta que resista à imbatível maresia. Logo, todas as casas parecem ter sido pintadas com o mesmo matiz – algo entre o cinza e o preto que, aliado ao inalterável silêncio a imperar sobre o município, alimenta a sensação de que os habitantes preservam intrínseca convivência com a saudade.

Alguns leitores podem até achar a afirmação a seguir verdadeiramente absurda. Todavia, embora contrariar não seja o meu objetivo, e eu preferisse conquistar simpatia ao invés de incredulidade, não seria justo omitir importantes características locais ou narrá-las com desonestidade. Valorizo a sinceridade – apesar de considerar a compreensão como o top dentre as virtudes –, e vejo-me obrigado a dizer que nem mesmo igreja há nesta cidade para que os meus conterrâneos possam dar vazão comunitária aos seus individuais arroubos de fé.

Certa vez o ministro de um culto qualquer estabeleceu uma célula de sua organização em nosso município. Os habitantes acolheram o templo com grande entusiasmo. Não que eles desejassem desde o nascimento ingressar nalguma instituição religiosa, mas devido à sua gritante necessidade de participar de novos acontecimentos.

Poucos meses depois, porém, o pastor da congregação desapareceu. Não poderia ter partido de maneira mais discreta: sumiu do mapa durante a inóspita madrugada. Dois anos se passaram antes que descobríssemos a causa do repentino desaparecimento. Soubemos que o pastor estava foragido. A polícia o procurava a fim de que ele respondesse a um processo por suspeita de usar a fé das pessoas a fim de enriquecer.

Se existe algo que eu não consigo entender é o fanatismo das pessoas por dinheiro. Por que todo o mundo que conheço dá tanto valor a punhados de papel? Obviamente o dinheiro proporciona ou deveria proporcionar a nossa sobrevivência, no entanto, só porque em dado momento, achamos por bem adotá-lo como meio.

Excetuando simples e pouco numerosos adventos físicos inerentes aos seres vivos, somos nós que originamos e instituímos necessidades de acordo com os subjetivos caminhos que se escolhe na busca pela felicidade. Inventamos os meios de satisfazê-las, portanto, podemos descartá-los a qualquer momento (ou pelo menos mudar a maneira como nos relacionamos com eles e o valor que lhes atribuímos). Sobretudo quando necessidades e meios de satisfazê-las se tornam irremediavelmente prejudiciais.

Acredito firmemente que o veículo não deveria ser tomado como fim. O condutor, a estrada, a paisagem, o ponto de partida, o destino..., enfim, é que são insubstituíveis. Sei lá! É que às vezes tenho a nítida sensação de que atualmente se dá maior valor a punhados de papel do que aos próprios seres humanos. Tal impressão me perturba e entristece, principalmente todos os dias após o retorno do meu irmão de seu trabalho no porto.

Desde que os nossos pais faleceram, surpreendidos em alto mar com seu barco modesto por violenta tempestade, Afonso, o irmão mais velho, assumiu as despesas da casa. Ele considera tal incumbência como sua obrigação e a desempenha com competência. O problema é que muitas vezes confunde os papéis e age como se realmente fosse o nosso pai.

Afonso é carregador de mercadorias em navios cargueiros no porto de uma cidade vizinha. Todos os dias ele desperta às quatro horas da manhã, engole o café em menos de cinco minutos, caminha dois quilômetros até alcançar a plataforma onde apanha a balsa, chega ao serviço e, por fim, passa o dia suportando o peso das caixas de mercadorias sobre os ombros a resfolegar de raiva perante as broncas do patrão.
O Afonso “engole” todas as queixas e depois as transmuta, canaliza e despeja contra o principal alvo que ele elegera para a sua desforra: o irmão imediatamente mais novo, ou seja, a pessoa que vos escreve estas linhas.

Logo que começaram as discussões iniciadas pelos reclames do Afonso, eu ficava muito nervoso e dizia inúmeros palavrões; insultos que certamente provocavam magoadas cicatrizes, inclusive aquelas que teimavam em crescer dentro da minha própria alma, delegar-me arrependimento e culpa; enfim, palavras cujo pronunciar jamais me deixariam orgulhoso, mas que eu não era suficientemente constante ou forte para impedi-lo.

Com o passar do tempo e reiteradas circunstâncias, porém, sobretudo após o dia em que escutei incomum ruído se dispersar pela casa a partir do quarto do Afonso, a paciência se tornou uma das virtudes que eu mais admiro.

Havíamos discutido por causa de uma futilidade qualquer. Resolvi dar um passeio na praia a fim de apaziguar os pensamentos e só voltei bem tarde. Foi quando ouvi o tal ruído. Aproximei-me vagarosamente e pude notar que o Afonso esquecera a porta do quarto semicerrada. Pela fresta de mais ou menos dez centímetros pude ver o meu irmão sentado na beira da cama a chorar com surpreendente amargura."

[continua...]

Ilustração da Artista Plástica Elizabeth Finholdt. Presente tanto na versão e-book quanto nos exemplares impressos.