Vilmar

Segue abaixo um trecho do conto "Vilmar", considerado pelos leitores como o mais divertido conto, dentre as histórias que compõem o livro "Os Nomes na Máquina":

"[...] Minhas esperanças ruíram! A partir daquele momento só esperava encontrar maiores aborrecimentos. Estava profundamente envergonhado e arrependido por ter me dado ao trabalho de discutir e insistir veementemente com a Sirley sobre o meu embarque naquela porcaria de excursão. Sentia-me frustrado por ter perdido tempo e energia em prol de uma grande bobagem.

Para piorar o meu apático estado de ânimo, outra vez o muambeiro – vulgo “Rei da Preguiça” – sentou-se ao meu lado. E como se aqueles poucos minutos que passáramos lado a lado, dentro do mais absoluto silêncio, tivessem de alguma maneira estabelecido entre nós algum grau de intimidade, sentindo-se no direito de me aborrecer, e abandonando os preceitos da boa educação, o sujeito perguntou:

“De onde você é?”
“Sou de um município qualquer...”, respondi rispidamente.

Quando as circunstâncias exigem de mim uma resposta imediata e enérgica, sou capaz de me transformar na grosseria em pessoa. De nenhuma maneira eu poderia dar a entender que estava minimamente interessado em conversar. Estava certo, e poderia até mesmo apostar, que a menor liberdade concedida ao Rei da Preguiça seria o bastante para que, em menos de cinco minutos, ele estivesse perguntando a cor da minha cueca e se o meu intestino era pontual como um relógio suíço.

Aliás, convenhamos: conversar com o indivíduo era a única coisa que me faltava acontecer para completar as piores férias da minha vida. Quase todos os acontecimentos têm o dom de me chatear. Sobretudo acontecimentos tão idiotas quanto os que movimentavam (ou embalavam tediosamente entoando cantigas de ninar) aquela excursão ridícula. Era preferível passar por mal-educado a ser obrigado a ceder os ouvidos aos desvarios de um desocupado por vocação e escolha.

Contudo, e infelizmente, o muambeiro não percebeu a descortês intenção da minha resposta. O imbecil chegou ao cúmulo de gostar das minhas palavras. Meneou a cabeça em sinal de aprovação e abriu o mesmo sorriso que exibia aos incautos turistas para os quais vendia as suas miúdas inutilidades.

Acho que o Rei da Preguiça pensou que eu estava tentando expressar algum tipo de convicção ou filosofia pessoal. O duro é que agora ele certamente não largaria do meu pé.

“Concordo com você! Também não acredito em imaginárias fronteiras geográficas. Separar as pessoas cerceando-as em cidades, estados, países... O que importa você ter nascido neste ou naquele lugar? Que diferença faz nascer nesta ou naquela região? Somos todos do planeta Terra! Somos humanos! Somos todos irmãos!”

O sujeito disse as suas frases como se ele fosse o mais tranquilo e sábio mortal. Naquele mesmo instante eu tive a certeza de que jamais ouvira tanta baboseira de uma única vez. Geralmente os indivíduos guardam a sete chaves as ideias absurdas que por acaso e ébria inspiração lhes ocorrem. Quando muito, num momento de deslize, servem esporadicamente aos demais pequenas doses de suas sandices. Depois, porém, ao despertarem para a realidade, as pessoas sempre se sentem profundamente envergonhadas.

Ah!, mas o muambeiro não se importava de despejar de uma única vez todo o conteúdo de seu vasilhame apodrecido! Ele não sentia constrangimento pela péssima qualidade do seu líquido turvo! O Rei da Preguiça certamente acreditava em tudo o que dissera!

É óbvio que todos nós somos seres humanos. Se bem que ultimamente venho desconfiando de que certos sujeitos são menos seres humanos do que os demais. De qualquer maneira, as pessoas devem preservar a sua nacionalidade (cantar o hino, jurar à bandeira, depositar seu voto nas urnas, pagar impostos...). As pessoas devem preservar as fronteiras. Caso contrário, como seria possível estabelecer governantes e governados?

Só que eu não estava com vontade ou disposição para debater o assunto. Debater qualquer que seja o assunto parece-me uma grande perda de tempo. Sobretudo debater com um sujeito que só anda por aí com suas ridículas bermudas e chinelas, que nunca corta os cabelos e talvez nem os lave, que vive de produzir e vender miudezas e pegar carona com o primeiro ônibus de turistas que cruze os seus caminhos redundantes.

Eu estava ciente de que nenhuma ideia perspicaz se manifestaria entoada pela voz macia e enervante e moldada pela boca cheia de dentes amarelados do Rei da Preguiça. Suas frases apenas comprovariam a minha impressão inicial. Seria verdadeiramente enfadonho corroborar algo tão fácil de entrever: a minúscula e primitiva inteligência do muambeiro.

“Ah!, é?”, respondi."

[Continua...]

Ilustração da Artista Plástica Elizabeth Finholdt. Acompanha tanto o e-book quanto a versão impressa.